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Shadow & Bone (2021) traz fantasia com personagens e enredos bem construídos

      Shadow & Bone (2021) estreou a 23 de abril, na Netflix e conta com 8 episódios com narrativa inspirada nos livros da triologia Grisha, da escritora israelita Leigh Bardugo.   A série narra a história Alina Sharkov, uma cartógrafa num mundo divido pelo Fold, um território habitado por monstros pelo qual é necessário passar para realizar missões mercantis, numa produção young adult que se destaca com bastante mais qualidade que, por exemplo, Shannara Chronicles (2016) mas ainda assim não se equipara a Game of Thrones (2011) ou The Witcher (2019).   O objetivo, percebemos logo nos primeiros episódios, é abolir o território contaminado, para que o mundo se possa desenvolver com paz e prosperidade. A série conta com personagens femininas carismáticas fortes, como a própria personagem principal, a estilista da Rainha e de Alina que é uma das minhas preferidas, fazendo o deleite de qualquer vaidosa, ou ainda a mãe do antagonista. Estas personagens têm backsto...

The Heroine's Journey (1990) de Maureen Murdock

 Para quem estuda ou se interessa por narratologia o monomito de Joseph Campbell, também intitulado a Jornada do Herói, não vem como nada de novo. É a estrutura pela qual grande parte das narrativas de Hollywood se seguem, dando origem à narrativa de três atos a que tanto assistimos. No entanto, entre questionamentos da jornada do herói e da sua aplicabilidade para o género feminino, deparei-me com a estrutura desenhada por Maureen Murdock, que foi aluna de Joseph Campbell e seguiu de perto as histórias de dezenas de mulheres enquanto terapeuta. A então chamada Jornada da Heroína,  é uma adaptação da Jornada do Herói à existência feminina.  Abaixo podemos ver as fases de ambas estruturas e as suas diferenças:  Como podemos observar a Jornada da Heroína inicia-se logo com "Separação do Feminino". enquanto que na Jornada do Herói apenas temos o encontro com o feminino na sétima etapa, "O Encontro com a Deusa". Esta separação inicial parte do pressuposto que as duas av...

I May Destroy You (2020)

Escrito por Michaela Coel e inspirada num episódio vivido pela própria, "I May Destroy You" (2020) conta a história da escritora de sucesso Arabella, cuja carreira se catapultou através dos posts publicados nas redes sociais, compilados num livro a pedido dos seus seguidores. Arabella está no caminho do sucesso, até que numa noite de copos e drogas tem um apagão. No dia seguinte tem uma ferida na cabeça , falta-lhe o telemóvel e tem apenas algumas memórias perturbadoras de uma suposta violação, que não sabe serem reais ou imaginadas. Após confirmação judicial de que foi abusada, Arabella entra num bloqueio criativo e numa espiral de auto descobrimento que lhe vai revelar muito sobre a sua vida.  A série explora o tema do abuso sexual de uma forma honesta e clara, sem tabus ou rodeios. Não só explora o abuso a membros do género feminino, mas do masculino também, fazendo notar as diferenças que ainda se fazem sentir no tratamento de uma e outra situação. Além disso e...

Malcolm & Marie (2021) O cinema reinventado em tempos de pandemia

Pelas mãos do realizador Sam Levison, também responsável pela criação da série "Euphoria" (2019), da HBO, chega à Netflix o seu novo filme, "Malcolm & Marie" (2021). O filme tem vários aspetos interessantes, um deles sendo óbvio, a adaptação da produção cinematográfica em tempos de pandemia, isolamento e restrições. É também inspirado no evento real do realizador se ter esquecido de agradecer à sua mulher numa das suas estreias. O filme tem apenas dois atores, os protagonistas, Malcolm, interpretado por John David Washington, e Marie, interpretado por Zendaya, ambos com performances excelentes. Passa-se todo dentro de uma casa, quando o casal chega da estreia de sucesso do filme de Malcolm e entra numa espiral de emoções que revela os segredos da sua relação.  Toda a estética do filme impõe um glamour que evoca os anos 20, e a época dourada de Hollywood, transmitida também pela cor em preto e branco. No entanto, à medida que as barreiras emocionais do casal se v...

Mulheres da Minha Alma (2020) Isabel Allende

"Cada ano vivido e cada ruga contam a minha história" Neste seu novo livro Isabel Allende faz uma reflexão sobre o facto de ser mulher, o feminismo,   o percurso que falta ainda percorrer para as mulheres e os nomes  daquelas que marcaram a sua vida. Os seus nomes são Panchita, sua mãe, Paula, a sua falecida filha, e a sua agente Carmen Balcells, mulheres que tiveram uma enorme influência na sua personalidade. Numa obra de não ficção escrita na primeira pessoa, a autora relata os acontecimentos que edificaram a sua visão e reflete sobre os seus significados, no presente.  Allende fá-lo, como sempre, numa escrita acessível e prazerosa, que transmite as suas ideias de uma forma suave a contínua. Compara as décadas da sua juventude à realidade atual pontuando as diferenças que se fazem sentir na evolução das nossas sociedades e de tantas outras falhas que faltam ainda corrigir. Assume-se como feminista desde pequenina, mesmo antes do conceito se ter disseminado no ...

Pieces of a Woman (2020) e a beleza da simplicidade no cinema

Pieces Of a Woman (2020) é o mais recente filme da escritora húngara Kata Wéber e do realizador Kornél Mundruczó, que estreou no TIFF (Toronto International Film Festival) e está agora disponível na Netflix. Conta uma história pesada e realista que explora as repercussões que um parto dramático tem na vida da personagem principal, Martha Weiss. Martha é interpretada por Vanessa Kirby que nos entrega uma atuação brilhante e cheia de emoção. Shia LaBeouf interpreta o companheiro, Sean, com quem Martha luta para conviver após serem separados por um rio de dor. É um filme sobre dor, pontes caídas, relações destruídas e sobre a força que é necessária para enfrentar um trauma deste género, juntando novamente todas a peças da existência. Visualmente,  o filme é muito cru. Não só nas cenas iniciais do parto, em que podemos ver claramente a criança a sair da vagina da mãe, mas posteriormente também, não se inibindo de nudez. O ritmo do filme é lento mas nunca nos aborrece, fazen...

Promising Young Woman (2020)

Da realizadora Emerald Fennell, "Promising Young Woman" (2020) traz-nos um thriller que relembra por vezes "Gone Girl" (2014), num tom mais cómico e colorido. Carey Mulligan dá corpo e voz à personagem principal, Cassandra, numa atuação brilhante que vai da psicopatia à doçura sem tremer. A personagem assusta-nos e conquista-nos levando-nos de um extremo ao outro da personalidade humana. O filme começa num bar, com um grupo de homens a predar uma aparente mulher alcoolizada. Quando um deles a leva para casa, percebemos que a ela está consciente e à procura de vingança. Quem é o predador afinal ? Se no início temos uma personagem que nos parece bidimensional, que se vinga de homens na noite, atraindo-os para testar a sua personalidade e punindo-os quando se revelam imorais, a evolução da narrativa leva-nos aos poucos a querer saber mais dos motivos desta caça.  Pelo seu pequeno livro colorido, com a contagem de homens por com quem já esteve, percebemos que Cassandra ...