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Mensagens

Entre o génio e a comunidade: Manhattan (2014) como contraponto histórico a Oppenheimer (2023)

O desenvolvimento das primeiras bombas atómicas, durante a Segunda Guerra Mundial, continua a ser um dos episódios mais revisitados da história do século XX, não apenas pelo seu impacto, mas porque condensa uma pergunta que permanece em aberto: como é que uma comunidade inteira contribui para uma mudança tão irreversível no mundo? É precisamente nesse ponto que a série  Manhattan (2014)  se revela um complemento essencial ao filme  Oppenheimer (2023) . Ambas as obras partem do mesmo momento histórico: a criação da bomba atómica durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, elas adoptam escalas e estratégias narrativas distintas. Enquanto  Oppenheimer  se constrói como um retrato autoral (fragmentado, obsessivo, centrado na figura do cientista enquanto símbolo do génio moderno e do seu colapso moral),  Manhattan recusa o mito individual e opta por uma perspetiva mais comunitária, acompanhando o quotidiano da cidade secreta de Los Alamos e das muitas vidas q...
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A Knight of The Seven Kingdoms e a moral das pequenas histórias

Egg e Dunken The Tall... as duas personagens principais de A Knight of The Seven Kingdoms, uma produção que surge como a adaptação do conto homónimo de G. R. R. Martin e que se distingue do restante universo ao afastar-se das intrigas políticas, lutas e batalhas épicas que marcam Game of Thrones e House of The Dragon. A história foca-se numa dimensão mais humana e íntima das duas personagens, sem deixar de parte os dilemas morais e as questões sociais que tornaram Westeros um território narrativo tão fascinante. A história passa-se cerca de cem anos antes dos acontecimentos de Game of Thrones e acompanha Sir Dunken The Tall, um cavaleiro de origens humildes e do seu escudeiro Egg, que mais tarde se revela como Aegon V Targaryen. Em conjunto, eles são o coração da narrativa. Dunken não é o cavaleiro a que estamos habituados. Ele é ingénuo, desajeitado, move-se através de um código moral em vez de ambições egocêntricas de poder e legado. Já Egg, caminha como um escudeiro escondendo as su...

A Academia da Mentira de Alexis Henderson

Eu dei 5 estrelas a A Academia da Mentira — e não foi por simpatia, foi porque este livro me prendeu mesmo. Confesso que fui para esta leitura com expectativas muito específicas: queria fantasia escrita por uma mulher, com uma personagem principal feminina e, especialmente importante para mim, adulta. Queria maturidade, agência, complexidade. Queria uma protagonista que não estivesse ali só para “acontecerem coisas” à volta dela. E foi exatamente isso que eu encontrei. O livro agarrou-me logo no início e uma das razões principais foi o carisma da Lennon. Há personagens que se impõem assim que entram em cena — não por serem perfeitas, mas por serem humanas, cheias de camadas e contradições. E a Lennon é isso. Ela é muito bem construída, complexa, com uma presença que nos faz querer acompanhá-la, mesmo quando ainda não percebemos tudo sobre ela. E uma coisa que me deixou mesmo contente foi isto: ela tem agência. Ela escolhe, reage, enfrenta, cresce. Não é uma personagem passi...

Vamos falar sobre a saga 28... dias, semanas e anos depois.

Já lá vão muitos anos em que, curiosamente, mesmo eu sendo uma amante da fantasia, volto sempre a incluir no meu catálogo anual a saga iniciada pelo brilhante “28 Dias Depois” (2002), de Danny Boyle. Para lá de um Cillian Murphy ainda no arranque da carreira, o filme tem um guião que na altura parecia mesmo fresco e uma banda sonora incrível, com os Godspeed You! Black Emperor a elevarem a tensão ao máximo numa das cenas que é para mim uma das mais marcantes do cinema britânico. E se me dá um prazer enorme revisitar este universo, também me oferece alguns pesadelos, porque não sou, por norma, fã de produções de terror.  Ainda assim, o filme conquista-me precisamente por ser mais do que sustos: é um apocalipse íntimo e silencioso, com Londres vazia a parecer um lugar errado, como se o mundo tivesse sido desligado. E quando os infetados aparecem, não são zombies lentos: são rápidos, ferozes, quase como se a raiva tivesse tomado conta do corpo. No meio disso, o que...

A Thousand Blows (2025)

A Thousand Blows (2025) é uma série dramática de época intensa que mergulha no submundo violento de East End, em Londres, no final do século XIX, em que o boxe ilegal, o crime organizado e as tensões de classe, raça e género se cruzam constantemente. A história passa-se numa Londres industrial sufocante, marcada pela pobreza, pela exploração laboral e por uma divisão social brutal. Longe dos salões elegantes do Império Britânico, a série fixa-se nos becos, nos pubs clandestinos e nos ringues improvisados onde homens lutam literalmente pela sobrevivência. A série mostra o Boxe como moeda de troca, espetáculo brutal e instrumento de poder. No centro da narrativa está Hezekiah Moscow, um jovem imigrante vindo das Caraíbas, que chega a Londres à procura de uma vida melhor. Rapidamente percebe que a cidade não oferece nada de graça. Dotado de força, resistência e instinto de sobrevivência, Hezekiah é puxado para o mundo do boxe sem luvas, onde cada combate é um risco real de morte e cada in...

Carrie Mathison, a Trope da Mulher Louca e o Olhar Feminino

Recentemente visualizei a nova série The Beast in Me (2025), com uma atuação brilhante da atriz Claire Danes. Após os curtos episódios, que deixam vontade de entrar mais a fundo na personagem e na sua maneira de ver o mundo, nada fazia mais sentido do que revisitar a personagem mais carismática da atriz — a agente da CIA Carrie Mathison — e a série Homeland (2011-2020). Ver Carrie após a conclusão de um doutoramento em representações femininas no cinema proporcionou-me uma perspetiva bastante diferente sobre a construção da personagem, revelando os elementos sociológicos e psicológicos que lhe conferem credibilidade e visceralidade. Carrie é uma underdog: uma agente exímia, com um instinto e uma capacidade de análise fora de série, mas que frequentemente se encontra nas margens do sistema — seja pela ferocidade com que defende a sua agência, seja pelas imposições das estruturas que a exploram e oprimem. Ao longo da história, a figura da “mulher louca” tem sido usada com...

Riot Women da BBC é um retrato divertido mas honesto da maturidade feminina

Só neste último trimestre de 2025 cheguei às glórias de Riot Women, uma série da BBC criada por Sally Wainwright, que acompanha cinco mulheres de meia-idade de Hebden Bridge, em Yorkshire, que decidem formar uma banda punk. Sally Wainwright é também a autora da irreverente série televisiva de época Gentlemen Jack (2019) que já me tinha conquistado com a sua atitude desafiadora do status quo. Riot Women (2025) passa-se na contemporaneadade e retrata a vida de várias mulheres na casa dos 50 anos, em que todas vivem a experiência da menopausa e lidam com uma sensação de invisibilidade social. No meio do caos da vida com que se deparam, é através da música que começam a reencontrar a própria voz. A narrativa combina humor, drama e uma forte energia musical, explorando temas como saúde mental, envelhecimento, relações familiares, dependência e o peso das responsabilidades de cuidado. As protagonistas — interpretadas por Joanna Scanlan, Lorraine Ashbourne, Tamsin Greig, Amelia Bu...