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The Bride (2026)

Há filmes que não se deixam organizar facilmente em categorias, que recusam a linearidade e a clareza, e que, por isso mesmo, permanecem no corpo mais do que na memória lógica. The Bride! (2026) , de Maggie Gyllenhaal , é um desses casos raros. É uma obra que parece menos interessada em contar uma história do que em provocar uma experiência sensorial, quase febril, sobre o que significa regressar à vida dentro de um corpo que nunca chegou a ser verdadeiramente nosso. Sendo eu amante de filmes de fantasia com personagens femininas nos papéis principais, este foi um dos filmes que me deu tanto prazer visualizar como apenas The Shape of Water (2017) conseguiu em anos recentes. Mesmo recheado de elementos sobrenaturais, The Bride! consegue, através de um female gaze sublime e da performance excelente de Jess Buckley, mexer com os temas mais sensíveis da nossa humanidade.  Partindo do imaginário clássico de Frankenstein  e da tradição literária inaugurada por Mary Shelley , que fo...
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The Testaments (2026)

A série The Testaments (2026), enquanto continuação e reconfiguração do universo de The Handmaid’s Tale e da obra de The Testaments de Margaret Atwood, obriga-me a regressar ao meu próprio percurso de leitura e de análise para compreender não só o que a obra faz, mas aquilo que o meu olhar já não consegue deixar de ver.  Se em 2018 me interessava a expansão visual do mundo, aquilo que o livro não mostrava e a série tornava visível, e  em 2020 me foquei na arquitetura interna de Gilead, na sua hierarquia e nos múltiplos discursos que o sustentam, em 2026 já não consigo olhar para esta série apenas como continuação narrativa.  Vejo-a como uma operação mais complexa, a da consolidação de um arquivo de vozes sobre um regime que deixou de ser apenas cenário e passou a ser linguagem. Nesta nova série, o que mais me interessa não é a história de Gilead em si, mas a forma como ela insiste em se fragmentar, através das várias vivências que lhe pertencem. A escolha de múltiplas pe...

28 anos depois: Templo dos Ossos e a memória como a única salvação civilizacional

Quando escrevi sobre a saga 28 aqui no blogue, a ideia central era simples: estes filmes nunca foram verdadeiramente sobre zombies. Sempre foram sobre estados emocionais colectivos. Primeiro, o choque (28 Dias Depois). Depois, a negação (28 Semanas Depois). E, no 28 Anos Depois, a habituação. O mundo não acabou, e o horror tornou-se rotina. 28 Anos Depois: O Templo dos Ossos pega exactamente nesse ponto e leva-o para um lugar ainda mais estranho. Se o filme anterior mostrava pessoas a viver no pós-apocalipse, este mostra pessoas que já não sabem que estão no pós-apocalipse. Não têm memória de um mundo anterior ao vírus, com ordem e regras. Para elas, este é simplesmente o mundo, com novas formas de convivência que surgem em micro-grupos organizados de maneiras completamente distintas.  Durante muito tempo, a saga construiu o medo a partir do movimento — correr, fugir, escapar. Aqui, o medo nasce de uma forma estabelecida de viver. As novas comunidades já não são apenas ...

Marty Supreme (2025)

Eu já desconfiava que Marty Supreme (2025) ia ser especial. Não só por ser realizado por Josh Safdie, nem apenas por ter Timothée Chalamet no centro, mas pelo tipo de filme que parecia querer ser. Há biografias que organizam vidas. Esta acompanha um estado mental. Em vez de uma narrativa limpa de ascensão-queda-redenção, seguimos alguém que vive permanentemente em improviso, quase como se pensar fosse um atraso entre dois gestos. À superfície, é a história de um jogador nova-iorquino de ténis de mesa dos anos 50 que decide tornar-se campeão do mundo. Mas isso é só o pretexto confortável que nos deixam agarrar nos primeiros minutos. O filme rapidamente revela outra coisa: um jovem incapaz de suportar a ideia de não ser visto como extraordinário. Não de não o ser — de não o parecer. Marty não entra nas cenas. Ele ocupa-as. Fala antes de pensar, ri antes da piada acabar, promete sem saber se consegue cumprir. Há qualquer coisa de vertiginoso na forma como arrasta todos consigo, não por...

Dust Bunny (2025) uma fábula entre as sombras do medo e as maravilhas da imaginação

Quando se pensa em Bryan Fuller, nome que ecoa tanto nas extravagancias de American Gods como nas sombras psicológicas de Hannibal,  poderia parecer estranho associá-lo a um filme que é simultaneamente conto de fadas e história de horror. Não fosse a versatilidade uma das características do realizador.  Dust Bunny , a sua estreia na realização de uma longa-metragem, não é apenas uma afirmação das obsessões que atravessam a sua obra, onde o fantástico se cruza com o grotesco. É também uma declaração de amor às histórias que nascem do medo e da imaginação, sobretudo aquelas que carregamos desde a infância. A premissa parte de  uma menina de oito anos que contrata um assassino profissional para matar o monstro que vive debaixo da sua cama . Mas Fuller retorce este ponto de partida com subtileza e sensibilidade suficientes para que até os elementos mais absurdos ganhem peso emocional. Aurora (Sophie Sloan) habita um universo onde a ameaça real e a fantasia subjetiva se conf...

Entre o génio e a comunidade: Manhattan (2014) como contraponto histórico a Oppenheimer (2023)

O desenvolvimento das primeiras bombas atómicas, durante a Segunda Guerra Mundial, continua a ser um dos episódios mais revisitados da história do século XX, não apenas pelo seu impacto, mas porque condensa uma pergunta que permanece em aberto: como é que uma comunidade inteira contribui para uma mudança tão irreversível no mundo? É precisamente nesse ponto que a série  Manhattan (2014)  se revela um complemento essencial ao filme  Oppenheimer (2023) . Ambas as obras partem do mesmo momento histórico: a criação da bomba atómica durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, elas adoptam escalas e estratégias narrativas distintas. Enquanto  Oppenheimer  se constrói como um retrato autoral (fragmentado, obsessivo, centrado na figura do cientista enquanto símbolo do génio moderno e do seu colapso moral),  Manhattan recusa o mito individual e opta por uma perspetiva mais comunitária, acompanhando o quotidiano da cidade secreta de Los Alamos e das muitas vidas q...

A Knight of The Seven Kingdoms e a moral das pequenas histórias

Egg e Dunken The Tall... as duas personagens principais de A Knight of The Seven Kingdoms, uma produção que surge como a adaptação do conto homónimo de G. R. R. Martin e que se distingue do restante universo ao afastar-se das intrigas políticas, lutas e batalhas épicas que marcam Game of Thrones e House of The Dragon. A história foca-se numa dimensão mais humana e íntima das duas personagens, sem deixar de parte os dilemas morais e as questões sociais que tornaram Westeros um território narrativo tão fascinante. A história passa-se cerca de cem anos antes dos acontecimentos de Game of Thrones e acompanha Sir Dunken The Tall, um cavaleiro de origens humildes e do seu escudeiro Egg, que mais tarde se revela como Aegon V Targaryen. Em conjunto, eles são o coração da narrativa. Dunken não é o cavaleiro a que estamos habituados. Ele é ingénuo, desajeitado, move-se através de um código moral em vez de ambições egocêntricas de poder e legado. Já Egg, caminha como um escudeiro escondendo as su...