A série The Testaments (2026), enquanto continuação e reconfiguração do universo de The Handmaid’s Tale e da obra de The Testaments de Margaret Atwood, obriga-me a regressar ao meu próprio percurso de leitura e de análise para compreender não só o que a obra faz, mas aquilo que o meu olhar já não consegue deixar de ver. Se em 2018 me interessava a expansão visual do mundo, aquilo que o livro não mostrava e a série tornava visível, e em 2020 me foquei na arquitetura interna de Gilead, na sua hierarquia e nos múltiplos discursos que o sustentam, em 2026 já não consigo olhar para esta série apenas como continuação narrativa. Vejo-a como uma operação mais complexa, a da consolidação de um arquivo de vozes sobre um regime que deixou de ser apenas cenário e passou a ser linguagem. Nesta nova série, o que mais me interessa não é a história de Gilead em si, mas a forma como ela insiste em se fragmentar, através das várias vivências que lhe pertencem. A escolha de múltiplas pe...
Quando escrevi sobre a saga 28 aqui no blogue, a ideia central era simples: estes filmes nunca foram verdadeiramente sobre zombies. Sempre foram sobre estados emocionais colectivos. Primeiro, o choque (28 Dias Depois). Depois, a negação (28 Semanas Depois). E, no 28 Anos Depois, a habituação. O mundo não acabou, e o horror tornou-se rotina. 28 Anos Depois: O Templo dos Ossos pega exactamente nesse ponto e leva-o para um lugar ainda mais estranho. Se o filme anterior mostrava pessoas a viver no pós-apocalipse, este mostra pessoas que já não sabem que estão no pós-apocalipse. Não têm memória de um mundo anterior ao vírus, com ordem e regras. Para elas, este é simplesmente o mundo, com novas formas de convivência que surgem em micro-grupos organizados de maneiras completamente distintas. Durante muito tempo, a saga construiu o medo a partir do movimento — correr, fugir, escapar. Aqui, o medo nasce de uma forma estabelecida de viver. As novas comunidades já não são apenas ...