Eu já desconfiava que Marty Supreme (2025) ia ser especial. Não só por ser realizado por Josh Safdie, nem apenas por ter Timothée Chalamet no centro, mas pelo tipo de filme que parecia querer ser. Há biografias que organizam vidas. Esta acompanha um estado mental. Em vez de uma narrativa limpa de ascensão-queda-redenção, seguimos alguém que vive permanentemente em improviso, quase como se pensar fosse um atraso entre dois gestos.
À superfície, é a história de um jogador nova-iorquino de ténis de mesa dos anos 50 que decide tornar-se campeão do mundo. Mas isso é só o pretexto confortável que nos deixam agarrar nos primeiros minutos. O filme rapidamente revela outra coisa: um jovem incapaz de suportar a ideia de não ser visto como extraordinário. Não de não o ser — de não o parecer.
Marty não entra nas cenas. Ele ocupa-as. Fala antes de pensar, ri antes da piada acabar, promete sem saber se consegue cumprir. Há qualquer coisa de vertiginoso na forma como arrasta todos consigo, não por maldade mas por crença absoluta na personagem que inventou. E Chalamet interpreta-o sem tentar torná-lo simpático. Esse detalhe muda tudo. Não estamos perante o underdog clássico nem perante o génio incompreendido. Estamos perante um performer compulsivo. A certa altura deixamos de saber se acredita no que diz ou se apenas precisa de continuar a dizê-lo para existir.
A câmara acompanha essa instabilidade. Quase nunca repousa. Quando parece haver um momento mais calmo, surge imediatamente um imprevisto. Os enquadramentos apertam, as vozes atropelam-se, as pessoas falam umas por cima das outras como se o silêncio fosse perigoso — porque talvez fosse. O silêncio implicaria consciência, e consciência implicaria admitir que Marty não é tudo o que promete ser.
O desporto aparece então como uma desculpa narrativa. Ele quer ser campeão, sim — mas sobretudo quer a história de ser campeão. Quer o título antes da vitória, a fama antes do feito. E fá-lo num desporto periférico, o que torna tudo ainda mais interessante. O filme trata o ténis de mesa com a gravidade épica reservada aos grandes heróis do desporto mainstream, enquanto a própria realização assume uma posição igualmente periférica dentro do cinema comercial. Quase como se estivesse constantemente a dizer: popularidade e grandeza não são sinónimos.
Há algo profundamente americano — e estranhamente contemporâneo — nesta ideia de que identidade se constrói por projeção. “Fake it until you make it”, levado a um limite existencial. Marty comporta-se como se já fosse uma lenda em preparação e a realidade anda sempre alguns passos atrás, a tentar acompanhar.
As relações funcionam como espelhos momentâneos. Cada pessoa recebe uma versão diferente dele: sofisticado com os ricos, cúmplice com os amigos, provocador com os adversários. Não parece manipulação fria, mas adaptação desesperada. Ele molda-se porque não existe forma estável por baixo. E quando finalmente o vemos como arrogante e imprudente, o filme complica o julgamento ao mostrar figuras mais poderosas capazes de arrogâncias maiores — e gratuitas.
Curiosamente, os únicos momentos de calma surgem durante os jogos. Quando a bola começa a circular, o filme abranda. Pela primeira vez Marty reage em vez de atuar. Não há discurso nem autopromoção. Só atenção. O jogo torna-se o único espaço onde não precisa de inventar uma versão de si próprio — e por isso é ali que parece mais humano. Fora da mesa, volta imediatamente à representação, como se não soubesse existir sem ela.
Essa oposição cria uma melancolia discreta. Não é a tragédia do fracasso; é a de alguém incapaz de repousar. A ansiedade contínua de provar a grandeza que anuncia antes de ela acontecer. Não quer apenas ganhar — quer garantir que o vejam como vencedor.
Apesar de situado nos anos 50, o filme fala diretamente do presente: performance constante, identidade pública, impossibilidade de separar pessoa e personagem. Marty vive décadas antes das redes sociais, mas comporta-se como se já estivesse nelas. Não quer atenção ocasional; quer atenção permanente. Sem olhar alheio, quase desaparece.
Por isso, quando falha, sentimos um estranho alívio. A derrota interrompe a narrativa e deixa espaço para outras facetas de si.
No fim, Marty Supreme não é sobre talento, mas sobre presença — sobre a diferença entre ser visto e ser alguém. O filme recusa decidir se Marty é extraordinário ou patético e mantém-no nesse território intermédio onde a ambição é simultaneamente motor e prisão. Não assistimos à construção de um campeão, mas ao esforço incessante de evitar a invisibilidade.
Quando termina, fica a sensação de que nada se resolveu verdadeiramente. O jogo pode parar. A personagem não. Como se a vida dele dependesse não de vencer, mas de nunca sair de cena.
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