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Entre o génio e a comunidade: Manhattan (2014) como contraponto histórico a Oppenheimer (2023)


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O desenvolvimento das primeiras bombas atómicas, durante a Segunda Guerra Mundial, continua a ser um dos episódios mais revisitados da história do século XX, não apenas pelo seu impacto, mas porque condensa uma pergunta que permanece em aberto: como é que uma comunidade inteira contribui para uma mudança tão irreversível no mundo? É precisamente nesse ponto que a série Manhattan (2014) se revela um complemento essencial ao filme Oppenheimer (2023).

Ambas as obras partem do mesmo momento histórico: a criação da bomba atómica durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, elas adoptam escalas e estratégias narrativas distintas. Enquanto Oppenheimer se constrói como um retrato autoral (fragmentado, obsessivo, centrado na figura do cientista enquanto símbolo do génio moderno e do seu colapso moral), Manhattan recusa o mito individual e opta por uma perspetiva mais comunitária, acompanhando o quotidiano da cidade secreta de Los Alamos e das muitas vidas que tornaram o projeto possível.

Historicamente, esta diferença é crucial. O filme de Nolan trabalha sobretudo o “antes” e o “depois” do acontecimento, retratando a corrida científica e, mais tarde, o julgamento político e simbólico de Oppenheimer. A série, por sua vez, ocupa-se do “durante", explorando o processo lento, repetitivo e muitas vezes banal através do qual a História se constrói. Em Manhattan, vemos como o Projeto Manhattan não foi apenas o resultado de decisões de génios isolados, mas de uma engrenagem complexa que envolvia cientistas secundários, técnicos, militares, esposas, filhos e uma infraestrutura inteira dedicada ao segredo.

É neste ponto que a série se torna relevante. Ao mostrar a vida em Los Alamos como uma experiência comunitária forçada, numa cidade vigiada, isolada, onde ninguém sabe exatamente o que está a construir, a série Manhattan expõe o custo humano do projeto em tempo real. As tensões conjugais, a frustração profissional, a competição entre os cientistas, o medo constante de falhar ou de ser vigiado fazem parte do tecido narrativo. A bomba não é apenas um objeto distante, ela é uma presença latente que contamina as relações, os corpos e as rotinas.

Ao contrário de Oppenheimer, onde o peso histórico se concentra progressivamente numa única figura, Manhattan dilui a responsabilidade. Essa diluição não serve para absolver ninguém, mas para mostrar que a catástrofe nasce menos de um ato individual do que de um sistema que normaliza o excecional. Ao acompanhar personagens que não fazem parte da História oficial, a série revela como o Projeto Manhattan exigiu não só inteligência científica, mas também conformismo, silêncio e adaptação emocional.

É também aqui que entram as mulheres, não como nota de rodapé, mas como parte estrutural da experiência histórica. Manhattan mostra esposas altamente qualificadas que abandonaram carreiras, mulheres confinadas ao espaço doméstico, mães a criar filhos num ambiente de segredo absoluto. Mesmo sem acesso direto à ciência, são elas que mantêm a estabilidade emocional da comunidade e que, por isso, sentem primeiro os efeitos psicológicos do isolamento e da mentira. A História deixa de ser apenas uma sucessão de decisões estratégicas e passa a ser vivida como desgaste quotidiano, mostrando não só a destruição pela qual a bomba foi responsável mas toda a destruição durante o processo. 

Quando regressamos a Oppenheimer depois de ver Manhattan, o filme ganha novas camadas. O foco quase exclusivo no génio e na culpa individual passa a parecer deliberadamente incompleto. Não porque esteja errado, mas porque escolhe uma perspetiva específica, focando-se no homem que carrega o peso simbólico da criação da bomba. A série lembra-nos que esse peso foi, na prática, distribuído por muitos anónimos, cujas vidas nunca entraram para os livros de História.

Enquanto Oppenheimer aborda a tragédia sobretudo como dilema moral e intelectual, Manhattan mostra-a como experiência vivida, muitas vezes sentida primeiro pelas mulheres que orbitam o projeto sem nunca o controlar.

No filme, figuras como Jean Tatlock ou Kitty Oppenheimer funcionam como momentos de rutura, mas permanecem subordinadas à trajetória do protagonista. Na série, pelo contrário, as mulheres não interrompem a narrativa, mas sustentam-na, como foi o caso em vários momentos históricos. São elas que expõem as fissuras do sistema, não através de grandes discursos, mas através do cansaço, da frustração e da recusa silenciosa em romantizar o progresso.

No final, Manhattan e Oppenheimer não competem, mas completam-se. O filme oferece a dimensão trágica e simbólica do génio que muda o mundo. A série devolve-nos a dimensão histórica mais incómoda, ao mostrar uma comunidade inteira envolvida num projeto cujas consequências ultrapassam qualquer indivíduo. Juntas, estas produções lembram-nos que a História não é feita apenas de nomes gravados em placas comemorativas, mas também de vidas suspensas, silêncios acumulados e escolhas normalizadas, muitas delas feitas longe do centro do poder, mas não fora do seu alcance.

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