Quando se pensa em Bryan Fuller, nome que ecoa tanto nas extravagancias de American Gods como nas sombras psicológicas de Hannibal, poderia parecer estranho associá-lo a um filme que é simultaneamente conto de fadas e história de horror. Não fosse a versatilidade uma das características do realizador.
Dust Bunny, a sua estreia na realização de uma longa-metragem, não é apenas uma afirmação das obsessões que atravessam a sua obra, onde o fantástico se cruza com o grotesco. É também uma declaração de amor às histórias que nascem do medo e da imaginação, sobretudo aquelas que carregamos desde a infância.
A premissa parte de uma menina de oito anos que contrata um assassino profissional para matar o monstro que vive debaixo da sua cama. Mas Fuller retorce este ponto de partida com subtileza e sensibilidade suficientes para que até os elementos mais absurdos ganhem peso emocional. Aurora (Sophie Sloan) habita um universo onde a ameaça real e a fantasia subjetiva se confundem. Num espaço mental onde assassinos, agentes secretos e uma criatura monstruosa se entrelaçam como num pesadelo infantil que se recusa a dissipar. Não deixa de ser cómico como um monstro fantástico a encaminha a um mundo de assassinos e monstruosidades reais e como estes dois planos se cruzam.
Visualmente, Dust Bunny é totalmente dicotómico. Tem cores vibrantes e enquadramentos cuidadosamente compostos que parecem arrancados de um livro ilustrado, como aqueles que encantam e inquietam em igual medida. Há algo de profundamente artesanal na estética do filme, como se cada plano tivesse sido desenhado para existir naquele limiar instável entre o maravilhoso e o perturbador. Por vezes temos enquadramentos típicos do género de horror preenchidos por uma imagem colorida e vibrante, deslocando-nos das nossas concepções. O resultado é um filme que celebra a forma sem nunca perder de vista a emoção, usando o excesso visual como extensão do mundo interior da protagonista.
É precisamente aí que Dust Bunny encontra a sua maior força. Mais do que um filme sobre monstros debaixo da cama, é um filme sobre os monstros que carregamos connosco e que nos moldam desde cedo. A criatura surge de forma intermitente, muitas vezes sugerida mais pela atmosfera do que pela presença física. Quando finalmente se revela por inteiro, o efeito é curioso. O monstro é algo entre o ridículo e o inquietante, como um “boneco infernal” saído de um pesadelo mal digerido. Essa ambiguidade não enfraquece o filme. Pelo contrário, reforça a ideia de que o verdadeiro terror raramente reside naquilo que conseguimos ver claramente e também a maneira com o vemos muda ao longo da vida.
No centro desta fábula sombria está a relação improvável entre Aurora e o hitman solitário interpretado por Mads Mikkelsen, um homem habituado a terrores adultos e reais. A química entre os dois sustenta o equilíbrio delicado entre o absurdo e o comovente. Aurora encarna a vulnerabilidade crua de alguém que já enfrentou perdas impossíveis de processar e ele, surge como um reflexo das contradições da vida adulta. É alguém capaz de enfrentar monstros reais com frieza, mas profundamente hesitante quando confrontado com os seus próprios fantasmas interiores e subjetivos.
Esta dualidade atravessa todo o filme e talvez explique o seu fascínio. Dust Bunny usa a iconografia do horror para falar de trauma, solidão e da necessidade quase desesperada de acreditar (na magia, nas histórias, nas crianças e, acima de tudo, em nós próprios). Não há aqui grande interesse em efeitos especiais vazios ou ações desprovidas de significado. Em vez disso, Fuller constrói um mundo onde cada objeto, cada canto escuro, parece carregar uma memória ou uma ferida mal cicatrizada.
É verdade que esta mistura de tons pode tornar a experiência irregular. Em certos momentos, o filme salta abruptamente da ação estilizada para imagens oníricas sem aviso prévio. Mas talvez isso faça parte da sua própria natureza: um filme tão interessado em provocar sensações contraditórias quanto qualquer sonho de infância que nos deixou confusos ao acordar. E prima pela originalidade.
Dust Bunny é uma experiência que se estranha, e depois entranha. Não é apenas fantasia nem apenas horror. É um convite a revisitar as histórias que inventámos para sobreviver aos nossos medos mais antigos. Histórias que nos fizeram rir e tremer em simultâneo. E, como qualquer boa fábula, deixa-nos com mais perguntas do que respostas sobre o que significa realmente enfrentar os nossos monstros e o que acontece quando, finalmente, deixamos de lhes ter medo.

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