Quando escrevi sobre a saga 28 aqui no blogue, a ideia central era simples: estes filmes nunca foram verdadeiramente sobre zombies. Sempre foram sobre estados emocionais colectivos. Primeiro, o choque (28 Dias Depois). Depois, a negação (28 Semanas Depois). E, no 28 Anos Depois, a habituação. O mundo não acabou, e o horror tornou-se rotina.
28 Anos Depois: O Templo dos Ossos pega exactamente nesse ponto e leva-o para um lugar ainda mais estranho. Se o filme anterior mostrava pessoas a viver no pós-apocalipse, este mostra pessoas que já não sabem que estão no pós-apocalipse. Não têm memória de um mundo anterior ao vírus, com ordem e regras. Para elas, este é simplesmente o mundo, com novas formas de convivência que surgem em micro-grupos organizados de maneiras completamente distintas.
Durante muito tempo, a saga construiu o medo a partir do movimento — correr, fugir, escapar. Aqui, o medo nasce de uma forma estabelecida de viver. As novas comunidades já não são apenas refúgios improvisados; são estruturas sociais com normas e hierarquias próprias. Existem regras, rituais, narrativas. Não são tentativas de regressar ao passado, são tentativas de substituir o passado. O vírus deixou de ser um acidente histórico para se tornar uma condição permanente.
A realização percebe essa transformação e abranda. Há menos urgência física e mais observação. As personagens param, escutam, participam. O filme olha para elas como alguém a estudar um ecossistema recente: ainda reconhecemos o humano, mas este já não existe na lógica antiga.
É aqui que entra o “templo”. Não como cenário de culto clássico, mas como mecanismo psicológico. Quando a sobrevivência deixa de ser exceção e passa a normalidade, surge outra necessidade — dar significado à permanência do horror.
Quando vemos Jimmy e os seus seguidores, os Fingers, a seita não aparece como loucura isolada, mas como consequência lógica. As pessoas precisam de explicar o mundo onde vivem e, quando não existe ciência, Estado ou memória funcional, resta apenas a crença.
É também aqui que a personagem de Ian Kelson se torna preponderante, como uma das últimas memórias vivas da medicina e da lógica anteriores ao surto inicial. Ele é um homem de razão que procura, apesar de todas as evidências, uma sustentação humana para as suas ações, sem nunca perder a fé na humanidade. Não em entidades abstractas, mas nas pessoas concretas.
Além disso, a sua performance ao som de Iron Maiden é um dos pontos altos do filme. Não só pelo divertimento inesperado da cena, mas pela facilidade com que consegue manipular quem já não tem memória do passado e, por isso, não possui ferramentas para o questionar.
O desconforto do filme nasce dessa coerência interna. Nada parece absurdo para quem nasceu ali. O passado — cidades cheias, electricidade constante, quotidiano banal — começa a soar quase mítico, como o próprio Dr. Kelson sugere. Há um momento subtil em que percebemos que os sobreviventes mais jovens nem sequer sentem nostalgia. Têm curiosidade arqueológica. O mundo antigo é uma lenda, não uma perda.
E para mim isto é o ponto central do filme: a memória como mecanismo de conhecimento e sobrevivência. O que acontece á humanidade quando esquece o seu passado?
Isto cria uma inversão interessante dentro da saga. Antes, os infetados eram o caos que interrompia a humanidade. Agora, são parte da estabilidade do sistema. Estão integrados no mapa mental das personagens. O perigo não é a sua existência, mas o significado que de forma ignorante lhes atribuem. Em continuidade com o filme anterior, mas noutro cenário, surge uma ideia desconfortável: o ser humano não está a tentar restaurar a civilização. Está a criar outra, construída em diálogo permanente com a violência.
Vemos isso pelos olhos de Spike, nascido num mundo em que os infectados já existiam e que depois de contactar com a racionalidade do Dr. Kelson no filme anterior se confronta agora com formas de vida radicalmente diferentes da sua, apesar da proximidade geográfica. O isolamento físico dos grupos transforma pequenas distâncias em abismos ideológicos, religiosos e morais.
O horror vem então da aceitação. De ver pessoas a organizarem-se funcionalmente em torno do impensável. A adaptação torna-se mais perturbadora do que a destruição. A sociedade não colapsou — reorganizou-se segundo novos valores, fragmentados pelas comunidades.
Também há uma mudança emocional importante. Nos filmes anteriores, sobreviver significava preservar algo do mundo antigo. Aqui, sobreviver significa pertencer. A identidade já não depende da memória, mas da integração. Quem recusa as novas regras não representa esperança. Representa instabilidade e insegurança.
O filme nunca transforma isto num discurso explícito. Mantém um tom observacional, com uma câmara que não julga, regista. E, ao fazê-lo, cria uma sensação estranha. A de que não estamos a assistir ao fim da humanidade, mas ao nascimento de uma versão diferente dela. Uma versão onde a violência não é exceção moral, mas linguagem social num mundo onde sem violência não se sobrevive.
Talvez por isso, além do primeiro, seja o capítulo mais inquietante da saga. É também o mais sereno. Já não existe expectativa de cura, nem sequer de resolução.
No artigo anterior falava do apocalipse como trauma prolongado. Este filme sugere outra coisa. O trauma acabou. Transformou-se em cultura.
E nas cenas finais, num eco claro do primeiro filme, surge uma cena em que filha e pai estudam lições de história para um exame, lembrando que preservar a memória talvez seja a única forma de evitar repetir as grandes atrocidades do mundo.
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