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Vamos falar sobre a saga 28... dias, semanas e anos depois.


Já lá vão muitos anos em que, curiosamente, mesmo eu sendo uma amante da fantasia, volto sempre a incluir no meu catálogo anual a saga iniciada pelo brilhante “28 Dias Depois” (2002), de Danny Boyle. Para lá de um Cillian Murphy ainda no arranque da carreira, o filme tem um guião que na altura parecia mesmo fresco e uma banda sonora incrível, com os Godspeed You! Black Emperor a elevarem a tensão ao máximo numa das cenas que é para mim uma das mais marcantes do cinema britânico. E se me dá um prazer enorme revisitar este universo, também me oferece alguns pesadelos, porque não sou, por norma, fã de produções de terror. 

Ainda assim, o filme conquista-me precisamente por ser mais do que sustos: é um apocalipse íntimo e silencioso, com Londres vazia a parecer um lugar errado, como se o mundo tivesse sido desligado. E quando os infetados aparecem, não são zombies lentos: são rápidos, ferozes, quase como se a raiva tivesse tomado conta do corpo. No meio disso, o que me fica é a sobrevivência emocional de Jim e do grupo — a Selena como dureza, o Mark como primeiro abrigo, a Hannah como esperança e o Frank como âncora de humanidade — e a ideia de que o maior perigo pode vir, afinal, dos “normais”. É  a ligação e entre os humanos que move a narrativa, num tom cru, introspetivo e imprevisível. 

Já “28 Semanas Depois” (2007), realizado por Juan Carlos Fresnadillo leva-nos para outra dimensão: seis meses depois, com uma reconstrução militarizada que parece sólida… até falhar de forma estrondosa. É um filme mais barulhento, urgente e caótico, onde o medo é físico e imediato, e as personagens acabam por funcionar mais como peças de um grande desastre do que como pessoas com quem respiramos juntos. Apesar da narrativa abordar questões familiares de culpa e traição, o foco no ser humano perde-se em função das ações da multidão no apocalipse. Assim, adoro o universo, mas sinto que os dois filmes não falam exatamente a mesma língua: partilham o mesmo mundo, sim. Mas têm estéticas e intenções tão diferentes que a ligação entre eles é mais narrativa do que conceptual.  

Já "28 Anos Depois" (2025) volta a realização de Danny Boyle é isso sente-se em toda a produção.

E é precisamente por isso que encaixa tão bem (e ao mesmo tempo tão diferente) nesta saga: já não estamos a ver o choque do colapso nem da ilusão caótica da reconstrução social. Estamos num mundo que aprendeu a viver com a ferida, isolando-se. O regresso do Danny Boyle traz de volta a sensação crua e sensorial do primeiro filme, mas com outra maturidade, uma vez que o apocalipse já não é um “evento” nem novidade, é antes o cenário permanente, a paisagem emocional vigente. Em vez de nos atirar para a adrenalina, como fez Fresnadillo, o filme parece interessado em mostrar a herança do trauma, com o que acontece a uma geração inteira que cresce sem futuro garantido, e no que a humanidade se torna quando sobreviver deixa de ser exceção e passa a ser rotina. “28 Dias Depois” (que é ainda o melhor filme da saga) me marcou-me pela intimidade e pela tensão silenciosa. Já “28 Anos Depois” parece querer  mostrar que, às vezes, o verdadeiro horror não é o mundo acabar… é o mundo continuar sem esperança.

Veremos agora o que "28 Anos Depois: The Bone Temple" (2026) realizado por Nia daCosta apresenta.





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