A Thousand Blows (2025) é uma série dramática de época intensa que mergulha no submundo violento de East End, em Londres, no final do século XIX, em que o boxe ilegal, o crime organizado e as tensões de classe, raça e género se cruzam constantemente.
A história passa-se numa Londres industrial sufocante, marcada pela pobreza, pela exploração laboral e por uma divisão social brutal. Longe dos salões elegantes do Império Britânico, a série fixa-se nos becos, nos pubs clandestinos e nos ringues improvisados onde homens lutam literalmente pela sobrevivência. A série mostra o Boxe como moeda de troca, espetáculo brutal e instrumento de poder.
No centro da narrativa está Hezekiah Moscow, um jovem imigrante vindo das Caraíbas, que chega a Londres à procura de uma vida melhor. Rapidamente percebe que a cidade não oferece nada de graça. Dotado de força, resistência e instinto de sobrevivência, Hezekiah é puxado para o mundo do boxe sem luvas, onde cada combate é um risco real de morte e cada interveniente luta pela sua sobrevivência. A série encontra-se agora na segunda temporada, explorando mais a fundo as narrativas introduzidas na primeira parte da história.
À medida que sobe no circuito ilegal do boxe sem luvas, Hezekiah entra em rota de colisão com vários gangues locais que controlam as apostas e os ringues, outras figuras do crime que exploram os lutadores, e um sistema profundamente racista e classista que o vê sempre como descartável.
É através dos olhos dele que conhecemos um dos elementos mais fascinantes da série: a forte presença feminina das Forty Elephants, uma gangue histórica real composta exclusivamente por mulheres especializadas em assaltos, burlas e esquemas elaborados.
A líder do grupo, Mary Carr, é uma personagem magnética. É estratega, carismática e absolutamente implacável. A série dá-lhe uma profundidade rara, mostrando como o poder feminino se constrói num mundo feito por e para homens, como estas mulheres manipulam normas sociais, moda e invisibilidade para sobreviver e dominar e como o crime pode ser também um espaço de autonomia quando todas as outras portas estão fechadas. Em relação à representação das mulheres, a série é bastante inovadora, não só pela maneira como as representa mas por o fazer através de um grupo, não singularizando, individualizando ou isolando a personagem "desviante".
As Forty Elephants foram, na realidade, um gangue feminino ativo em Londres entre o final do séc. XIX e meados do XX. Eram especialistas em roubo organizado, sobretudo em lojas de luxo. Elas são mostradas como mulheres pobres, maioritariamente da classe trabalhadora, profundamente conscientes de que o sistema legal, laboral e social não foi feito para elas, e que escolhem o crime não como desvio moral, mas como estratégia de sobrevivência e autonomia, como o único caminho capaz de lhes providenciar alguma liberdade num sistema profundamente opressor.
Mary Carr é uma personagem-chave e uma das figuras femininas mais interessantes da série. Ela lidera através da sua inteligência estratégica derivada de uma consciência implacável da sua posição num sistema que não protege as mulheres e onde apenas a sororidade as pode elevar. Ela não é "maternal", nem "sexy", nem polida. Ela é pragmática, ambiciosa e por vezes até cruel, nunca se desculpando pelas suas ações e recusando-se a pedinchar.
As Forty Elephants funcionam quase como um comentário à própria época mostrando como a História foi escrita sem a perspetiva feminina e que, além da prostituição, muitas vezes vista como única forma de independência num sistema patriarcal, existiram outros sistemas de poder feminino fora da domesticidade e que o crime pode ser uma forma de agência quando todas as outras portas estão fechadas.
Elas conhecem o ritmo das lojas, os olhares dos empregados, a psicologia da suspeita, e os códigos sociais que as permitem passar despercebidas. Roubar vestidos, jóias e objetos de luxo não é só lucro, é apropriação simbólica de um mundo que lhes é negado.
A relação entre o mundo do boxe e o das Forty Elephants cria uma tensão constante entre força física e inteligência estratégica. A série trabalha vários temas com densidade e sem romantização, como a violência estrutural, mostrando o corpo como campo de batalha social, a masculinidade tóxica confundindo honra, brutalidade e sobrevivência, o racismo e a imigração, mostrando o império britânico visto de baixo, por quem é explorado por ele, a relação entre o poder feminino e a criminalidade, através de mulheres que recusaram o papel de vítimas, e a classe social, mostrando um mundo em ninguém faz a escalada social sem pagar um preço.
Visualmente, A Thousand Blows é sombria, suja e visceral, tem uma fotografia escura, quase lamacenta, com câmaras muito próximas nos combates, fazendo o espectador sentir cada golpe, sangue, suor e exaustão mostrados sem filtros, através da visão de Stephen Knight numa estética próxima mas também contrastante da que entregou em Peaky Blinders.
As intereções femininas são filmadas de forma semelhante às lutas de boxe: com planos detalhe e close ups das suas expressões, fazendo sentir a sua luta interna fora do ringue.
Em A Thousand Blows a roupa é funcional e estratégica. Também a câmara observa gestos, trocas de olhares, micro-movimentos e o poder feminino é filmado na ação e no planeamento, não na pose. Visualmente, isto cria uma energia muito menos “poster” e muito mais processual, dando conta da experiência das personagens de uma forma muito impactante. A luz baixa, muitas vezes naturalista e as sombras que oprimem as personagens mostram a situação emocional em que se encontram, numa estética que se preocupa mais com o que as mulheres sentem no decorrer da ação do que propriamente a sua aparência, mostrando uma constante sensação de sufoco.
O ritmo alterna entre explosões de violência e momentos mais silenciosos, onde o peso psicológico das escolhas se instala. Não há heróis puros, só pessoas a tentar não afundar.
Apresenta ADN comum com Peaky Blienders através do “realismo estilizado” de Steven Knight em que as duas séries partilham uma assinatura visual muito específica: paleta escura e com pouca saturação, tons de castanho, preto, cinzento, verde sujo. Nada é luminoso por acaso. A luz parece sempre filtrada por fumo, pó ou fuligem.
Londres aparece como um organismo cansado, industrial e opressivo, com ruas estreitas, interiores abafados, espaços onde o ar parece pesado, com uma classe trabalhadora filmada com gravidade épica, tal como em Peaky Blinders, com um esforço claro em dar peso visual e dignidade a personagens que o sistema considera descartáveis.
Onde A Thousand Blows se afasta de Peaky Blinders é na apresentação de menos fetichização e mais fricção. Se Peaky Blinders constrói uma iconografia muito forte com slow motion, poses calculadas, figurinos quase míticos (os casacos, os bonés, os cigarros), com corpos masculinos transformados em imagem de poder, A Thousand Blows faz o contrário. A camara não idolatra os corpos, o boxe é filmado de forma claustrofóbica e exaustiva, através do o suor, o sangue e a respiração pesada quebram qualquer glamour. Se Peaky transforma o gângster em mito, A Thousand Blows desmistifica o lutador e consequentemente, através das mesmas técnicas as "lutadoras" da sobrevivência.
A série entrega performances excelentes de atores como Stephen Graham, Erin Doherty e Malachi Kirby.

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