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The Bride (2026)


Há filmes que não se deixam organizar facilmente em categorias, que recusam a linearidade e a clareza, e que, por isso mesmo, permanecem no corpo mais do que na memória lógica. The Bride! (2026), de Maggie Gyllenhaal, é um desses casos raros. É uma obra que parece menos interessada em contar uma história do que em provocar uma experiência sensorial, quase febril, sobre o que significa regressar à vida dentro de um corpo que nunca chegou a ser verdadeiramente nosso.

Sendo eu amante de filmes de fantasia com personagens femininas nos papéis principais, este foi um dos filmes que me deu tanto prazer visualizar como apenas The Shape of Water (2017) conseguiu em anos recentes. Mesmo recheado de elementos sobrenaturais, The Bride! consegue, através de um female gaze sublime e da performance excelente de Jess Buckley, mexer com os temas mais sensíveis da nossa humanidade. 

Partindo do imaginário clássico de Frankenstein e da tradição literária inaugurada por Mary Shelley, que foi já reinventada inúmeras vezes, o filme desloca o eixo da narrativa para uma figura historicamente secundária, a da noiva. Mas aqui, essa noiva não é apenas um complemento, nem uma criação falhada destinada a desaparecer e atormentar fatalmente a personagem principal. Ela é o centro gravitacional de tudo. Esta mulher reconstruída emerge num mundo que não reconhece, carregando apenas fragmentos de si, impulsos, sensações, e uma energia bruta que oscila entre a curiosidade e a fúria.

É nesse território que o filme se torna particularmente interessante quando olhado através de uma perspetiva de género. O corpo da noiva não é apenas um dispositivo narrativo. É um campo de tensão política colocado muitas vezes em confronto. Construído, reanimado e imediatamente observado, desejado, temido e controlado, esse corpo carrega consigo uma história que nunca lhe pertenceu totalmente. Ao longo do filme, o que vemos não é tanto uma busca por identidade no sentido clássico, mas uma recusa progressiva das identidades que lhe são impostas, com a célebre frase "I would prefer not to", uma afirmação raramente proferida por mulheres à data da narrativa e constantemente afirmada pela personagem principal.

A relação com o monstro, interpretado por Christian Bale, afasta-se deliberadamente de uma lógica romântica convencional. O que os une não é um ideal de amor, mas uma condição partilhada de deslocamento e loucura. São ambos corpos fora de lugar, figuras que existem à margem de uma ordem social que os rejeita, mas que, paradoxalmente, também os transforma em espetáculo. A sua ligação constrói-se mais na sobrevivência ao exterior do que na harmonia, mais na cumplicidade do que na idealização. Juntos, tornam-se seres errantes, quase míticos, a atravessar um mundo que os persegue ao mesmo tempo que projeta neles os seus próprios medos e desejos, numa obsessão sádica.

Há, ao longo de todo o filme, uma recusa clara da contenção. Narrativamente, isso traduz-se em rupturas, em momentos que parecem desconectados, em escolhas estilísticas que desafiam expectativas. Ao rejeitar uma estrutura clássica, Gyllenhaal aproxima-se de uma forma de expressão que privilegia o corpo e a sensação sobre a lógica e a explicação. O filme não quer ser resolvido, quer ser vivido com um desejo tão forte como quem volta do mundo dos mortos.

Essa dimensão é particularmente relevante quando pensamos no lugar do feminino no cinema contemporâneo. Durante décadas, tantas representações de mulheres foram moldadas por estruturas narrativas que exigiam coerência, legibilidade, contenção emocional. Aqui, pelo contrário, o feminino surge como algo indisciplinado, por vezes contraditório, frequentemente excessivo. A noiva não é facilmente compreensível e o filme não tenta torná-la mais acessível. Pelo contrário, insiste na sua opacidade, na sua complexidade, na sua resistência a ser totalmente capturada pelo olhar do outro, a submeter-se ao male gaze dominante. Ela chega mesmo a evocar a sua "raiva" e a sua "luta" como mecanismo de sobrevivência a uma sociedade habituada a abusar do sexo feminino.

Apesar da aparente loucura, a noiva consegue perfeitamente afastar-se da trope da mulher louca e fazer uso da mesma. Porque em toda a sua loucura e desorganização caótica, ela acaba por ser uma personagem coerente na sua revolta e vontade de lutar contra os seus opressores. 

É precisamente aí que reside uma das maiores forças de “The Bride!”. Mesmo quando falha, essas falhas fazem parte da sua linguagem. A irregularidade não é apenas um problema. É também uma afirmação estética. Num panorama cinematográfico muitas vezes dominado por fórmulas previsíveis, há algo de radical num filme que aceita ser imperfeito, que se permite ser excessivo, que não procura agradar de forma linear, assim como as suas personagem imperfeitas que procuram liberdade.

No final, o que permanece não é tanto a narrativa em si, mas a sensação de ter estado diante de algo vivo, inquieto, impossível de domesticar. 




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