Se em 2018 me interessava a expansão visual do mundo, aquilo que o livro não mostrava e a série tornava visível, e em 2020 me foquei na arquitetura interna de Gilead, na sua hierarquia e nos múltiplos discursos que o sustentam, em 2026 já não consigo olhar para esta série apenas como continuação narrativa.
Vejo-a como uma operação mais complexa, a da consolidação de um arquivo de vozes sobre um regime que deixou de ser apenas cenário e passou a ser linguagem.
Nesta nova série, o que mais me interessa não é a história de Gilead em si, mas a forma como ela insiste em se fragmentar, através das várias vivências que lhe pertencem. A escolha de múltiplas perspetivas, já presente no livro de 2019, mas agora amplificada na adaptação, reforça a ideia de que não existe um ponto de vista totalizador e mostra como tudo mudou desde a instauração do regime até à data dos eventos narrados. Se antes tudo era horror, em The Testaments existe uma paz e uma aceitação apenas possível através da dominação humana e da criação de novos seres, nascidos e criados numa realidade que já não questionam.
Aunt Lydia, Agnes e Daisy não são apenas personagens narrativas. Elas são regimes de perceção. O poder, a crença e a dissidência não coexistem apenas, eles disputam o espaço da verdade.
Mas, ao contrário do que senti em 2020, aqui essa fragmentação já não me parece apenas uma estratégia de complexidade narrativa. Começa a revelar também um risco: o de transformar Gilead num sistema demasiado explicável. Ao dar demasiadas chaves de leitura internas, com demasiadas camadas, demasiadas justificações, a série corre o risco de suavizar a sua própria opacidade original. Mas penso que será mesmo essa a ideia. Mesmo o que parece inicialmente absurdo se normaliza eventualmente. Pelo menos para quem está por dentro dessa mesma realidade.
O terror de Gilead, que em The Handmaid’s Tale era muitas vezes o que não se explicava, passa agora a ser parcialmente racionalizado.
Ao mesmo tempo, reconheço que essa racionalização também faz parte da evolução do meu olhar. Já não procuro apenas impacto ou choque. Procuro estrutura, coerência, e sobretudo consequências. E é aqui que The Testaments (2026) me devolve algo importante, através da ideia de que os sistemas não se mantêm apenas pela violência, mas pela continuidade simbólica. As Aunts, as Pearl Girls e os Econopeople não são apenas extensões do regime. São os seus mecanismos de sobrevivência narrativa.
Há, no entanto, uma tensão que permanece produtiva entre o mundo externo de Offred/June e este novo eixo narrativo interno à Gilead.
A ausência da centralidade absoluta da primeira série liberta o universo, mas também o desloca. Já não há um único corpo através do qual lemos a opressão, pois há uma multiplicidade de corpos que a reproduzem, a contestam ou a negociam. Isso transforma a experiência do espectador, uma vez que deixamos de estar dentro de uma subjetividade e passamos a circular entre posições.
Nesse sentido, a série reforça algo que já intuía em 2020. A Gilead não é apenas um regime, é uma linguagem. E essa linguagem adapta-se, reorganiza-se e sobrevive através das suas próprias narrativas internas. O que antes via como expansão do mundo, vejo agora como expansão do discurso.
Se há algo que me inquieta nesta fase mais recente da obra, é precisamente esta capacidade de transformação contínua, de adaptação e sobrevivência.
O universo de The Handmaid’s Tale deixou de ser apenas distopia e passou a ser um sistema narrativo autossustentado, que se reescreve a cada nova perspetiva. Isso torna-o mais rico, mas também mais controlado enquanto objeto cultural, com menos interrupção e mais continuidade, como um novo mundo instaurado.
E talvez seja aqui que o meu olhar mais mudou. Em 2018, procurava ver mais. Em 2020, procurava compreender como tudo se encaixava. Em 2026, procuro perceber o que se perde quando tudo começa a encaixar demasiado bem.
The Testaments já não me interessa apenas como resposta às perguntas deixadas em aberto, sobre Offred, sobre Nicole, sobre a queda de Gilead.
Interessa-me como gesto de reconfiguração, como um exercício de memória organizada, onde a fragmentação já não é apenas forma, mas também contenção.
E nesse movimento, continuo a reconhecer o que sempre esteve presente na essência da narrativa: o corpo como território político, a narrativa como disputa de poder e a minha própria leitura como algo que se desloca com o tempo. Entre ver, compreender e desconfiar do que é demasiado perfeitamente explicado.

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